Sábado, 20 de Junho de 2009

A Páscoa versão australiana

Não foram bem coelhos que me visitaram nesta Páscoa. Este ano, a visita partiu de mim. Este ano, fiz uma visita aos cangurus!

Quase seis meses nesta terra e dois dedinhos de vergonha em dizer que ainda não havia visto um canguru. Unzinho só, poxa! Nada, nadica.

Pois bem, chegou a Páscoa, nos presenteando com dois dias de feriado e 4 dias de boresta. O que fazer sem gastar muito dinheiro e com esse tempinho incerto que tem feito aqui?

Antes de mais nada, explico o motivo pelo qual ainda não havia visto cangurus: a entrada para o Zoo custa nada mais nada menos do que AUD$54,00. Quem me conhece sabe que não pago esse preço nem a porrada, nem para... ver cangurus! Então aqui estava eu, ainda sem ver cangurus, ainda a ver navios...

Mas estou na Austrália, raios! Não é possível que não possa ver canguru de outra forma! Afinal, canguru aqui é considerado uma praga! Aqui na Austrália há mais cangurus do que pessoas, dizem! Aqui na Austrália vejo os bichos mais estranhos e exóticos no jardim de minha casa, como não consigo ver um mísero canguru? Aqui na Austrália, a vida é wild, man!

Eis que chega a Páscoa, dias livres, companhias e... um carro emprestado cai em nosso colo! Podemos ir pra onde quisermos, fazer o que quisermos! São tantas as possibilidades que a gente fica até perdido! Um joga a bola pro outro. Pra onde vamos, pra onde vamos? Suspirei: "Na boa, quero ver canguru!" Só faltou um beicinho e não duvido nada que eu tenha esboçado um!

Aí eu ouço: "Quer ver cangurus? Então vamos ver cangurus!" Fico um pouco desnorteada. Tão fácil assim e eu não estou sabendo? What the fuck, man!

O carro segue em direção ao norte de Brisbane. Ainda em no estado de Queensland, partimos pra cidade chamada Caboolture. O lugar é Toorbul. Lugar pequeno, algumas ruas, muitas casas com jardins.

Nos aproximamos do destino e vejo aquela placa clássica com a figura do canguru e embaixo: NEXT 6km. Mais a frente, uma placa pedindo que o motorista tome cuidado, pois podem haver cangurus na pista. Não posso acreditar nisso, quanta simplicidade, quanta facilidade em ver um canguru!

Passeamos um pouco pelas ruas escassas, tempinho ora chuvoso, ora nublado! Cadê os cangurus? Cadê os cangurus?!?!

Chegamos ao final do bairro, damos meia volta, passeamos agora pela rua que permeia o rio. Entre uma casa e outra, em meio a um gramado meio enlameado, eis que vejo um. Um, não. Dois. Três! Uma família! Que lindos, que fofos, pulando, comendo, cheirando, as orelhinhas se mexendo! Que pernas engraçadas, quase desengonçadas! Dois pernões traseiros e dois curtinhos dianteiros! Que pulão! Seria pedir demais ver um canguruzinho na bolsa na mãe?

Fotos, fotos! Que emoção! Cangurus andando pela cidade, entre uma casa e outra, passeando pelos jardins, comendo plantinhas pelas ruas, bebendo água das poças feitas pelas chuvas. Vejo as pessoas em suas casas, umas regando suas plantas, outras colocando o almoço na mesa, ninguém parece se importar. Que estranho, minha gente! Ninguém se incomoda, ninguém se emociona, faz parte do dia-a-dia daquelas pessoas... Talvez o canguru seja para eles o que, para nós, brasileiros, é um vira-lata! Um em cada esquina, esperando um momento de deslize nosso pra abocanhar qualquer comida!

Chamamos eles pra perto, nos afastamos com receio. Fotos, fotos, fotos! Entramos no carro, damos mais umas voltas. Vemos outros cangurus aqui e ali, na frente das casas, nos jardins, nos fundos, nas ruas.

Não alimente os cangurus, não deixe sua lixeira destampada, proteja as comidas de suas casas, caso contrário eles avançam! Viva seu cotidiano normalmente, saia um pouco de casa para ver o dia e esbarre... com cangurus pelas ruas! Que demais, que diferente, que coisa extraordinária. Isso é que é interagir com a Natureza! E isso é o tipo de coisa que eu nunca veria no Brasil!

Dirija devagar, obrigado pela cooperação, boa viagem e volte sempre!

Eu vi um canguru! Eu vi um canguru na Austrália!!! E de graça, o que corrobora ainda mais a filosofia de não existir preço nas coisas simples que nos trazem felicidade!

Chego em casa, pego minha lista de "coisas-a-fazer-antes-de-morrer" e faço mais um risco. Feliz da vidaaaaa!

Domingo, 10 de Maio de 2009

Rat Race e o pulo do gato

Com o ritmo de vida corrido dos tempos atuais, o que mais me causava tristeza no Brasil era a falta de tempo. Tempo pra pensar, pra organizar a vida e realizar coisas, tempo pra passar ao lado de quem se gosta e pra curtir as coisas que me dão prazer. Nada de extraordinário ou impossível, muito pelo contrário: curtir as coisas simples do nosso cotidiano. Ler um livro, ver um filme, beber um vinho com um amigo, dividir uma pizza ou um cigarro esperto, trocar idéias e rir, rir muito.

Infelizmente já nascemos com as regras escritas: trabalha-se 8h por dia. Nada contra o trabalho, minha gente. Trabalhar, produzir e ser útil é bom e eu gosto. Só não gosto de pensar que das 24 horas do meu dia eu dedico pelo menos 10h ao trabalho. Subtraia daí as horas de sono, as horas no trânsito, as horas das refeições, do banho, dos deveres e afazeres. Sobra quanto pra gente investir em nós mesmos?

Rat Race. Exatamente isso. Uma corrida de ratos, aqueles de laboratório que ficam correndo eternamente numa roda. Corrida para não se chegar a lugar algum, onde se faz esforço sem sair do lugar.

Cansei. E veio o estalo na cabeça: é hora de sair dessa roda, procurar outra sombra pra amarrar meu burro.

Acho que é isso que estou fazendo aqui na Australia. Outra forma de vida, outra rotina, outra dinâmica, outras atividades para preencher as horas do meu dia.

Menos horas de trabalho, usar mais o braço e menos o intelecto - ou ambos -, curtir novas paisagens, ganhar meu salário numa moeda tem um valor completamente diferente diante do mundo, trazer novas perspectivas de vida, abrir mais possibilidades, usar meu tempo a meu favor (egoísmo a parte)!

Ser um pouco o caçador e não a caça. Ser o gato, ter sete vidas, dar o pulo mais alto do mundo e ainda por cima cair em pé!

Domingo, 19 de Abril de 2009

Girassol sem Sol


girassol sem sol
não brilha, chora
não gira, noite
não vida, morte

girassol sem sol
parapeito sem vazos de flores
varanda sem rede malemolente
noite sem estrelas cadentes


girrasol sem sol
pétalas amarelecidas ao chão
pólen estéril ao vento
caule curvado em redenção

girrasol sem sol
ai que dor aguda,
ai que aperto estreito,
ai que saudade fininha
de coelhos, borboletas e joaninhas
do jardim que cultivo no peito.

Poesia de Karina Lerner, Março 2009
Foto de Karina Lerner, Março 2009
West End, Brisbane, Australia

Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Compartilhando

"Às vezes, vem-me um certo cansaço em tentar expor o óbvio a uma platéia basicamente burrificada que, entre outros atrasos inomináveis, acredita mobilizar atos controladores, do cosmo à vizinhança, pela prática e repetição de gestos e palavras cabalísticas e pela observação de preceitos disparatados, que envolvem desde a comida até o que se põe sobre o corpo. Eu não; eu dei um passo, dei vários passos à frente, estou na frente e no topo. E, se você não está, é por covardia, estupidez, preconceito, ignorância e supertição. E, provavelmente, não sairá disso, mesmo tendo conhecimento de vidas efetivamene vitoriosas, como a minha. A vida é vitoriosa não quando se tem o que se costuma ver como bênçãos, ou seja, beleza, dinheiro, honrarias e assim por diante. Essas coisas podem perfeitamente conviver e até entrar em simbiose com a mais completa infelicidade. Elas não representam uma vitória, por mais que seus detendores e os que erroneamente os invejam queiram pensar assim. A vida é vitoriosa quando se satisfaz o que de fato há em cada um de nós, aquilo que de fato ansiamos e quase nunca nos permitem, nem nos permitimos, reconhecer. Preencher essa satisfação é uma tarefa cumulativa, em que a preparação é, por assim dizer, permanente."

Trecho do Livro "Diário do Farol", João Ubaldo Ribeiro

Quarta-feira, 11 de Março de 2009

No limbo das palavras não ditas


Onde ecoa o silêncio
Onde se encontra o vazio
Onde transborda espaços em vãos

Onde as interrogações residem
Onde as reticências devotam
Absoluta fidelidade à imaginação

Onde perguntas sem respostas
Não se calam com o tempo
Onde o sim pode ser um não

Onde a ampulheta vira eternamente ao avesso
Onde se perpetua um monologo com o pensamento
Onde não se encontra esquerda nem direita,
teto nem chão

Onde termina a esperança
Do pote de ouro, nem um vestígio
Liberdade para minhas verdades
Onde começa a confusão

Poesia de Karina Lerner - Fev/2009
Foto de Ronaldo Januário - Fev/2007