Algumas memórias são boas. Outras deixam gosto amargo no canto da boca. Não sabemos ao certo porque lembramos de algumas coisas quando a maior parte se perde com o tempo, ao sabor do vento. Mas acredito no que fica. Fica porque clica. Clica e esse clique quer dizer sempre alguma coisa pra nós, de nós.
Para além das memórias, as histórias das memórias e sua evolução ao longo da vida. Qual foi nossa primeira lembrança de uma música, um beijo, uma grande amizade, uma levantada de poeira, uma dor que fez amadurecer? São lembranças de que época, são boas ou ruins?
Me considero uma pessoa de muitas memórias, de boa memória. Lembranças abrangendo todas as épocas da minha vida, fui a alinhavando através de pessoas que me marcaram, poemas e poetas, livros, música, carga emocional que meu peito carrega, fotografias, vida social e educacional, segredos, momentos e risadas compartilhadas.
Como as veias que percorrem nosso corpo, emaranhado em espiral que alimenta nosso ser. Me carregando de memórias, leio minha história no mundo. Que parte tomo nessa História, que função meu personagem tem nesse mundo e como ele tem se desenvolvido? O que exatamente represento e o que represento para o outro?
E quando nossas memórias vêm através do cruzamento de histórias passadas ou se entrelaçam com memórias de outrem, é quando eu mais me sinto tocada pela vida. É quando tenho a chance de renovar minhas memórias e agregar maior doçura às minhas lembranças, futuras.
Com sorte, algumas que já eram doces tornam-se mais adocicadas, manjar dos deuses como oferenda ao meu coração. Com sorte, algumas sabor bílis encontram o néctar da flor mais rara, no topo da montanha mais alta, de ar rarefeito.
Mas nunca voltar atrás, nunca refazer. Nunca fazer de novo, sempre fazer diferente. Sempre escrever um novo capítulo. Passar por cima, como bola de neve, cada camada adicionada uma carga emocional mais aprofundada, branca cor da paz de espírito. A memória e o tempo como uma relação orgânica que se modifica e fortalece, que ultrapassa, que nutre e floresce.
Pois se minhas memórias não me falham, não há inverno que não encontre um verão adiante. Não há dor que não encontre o prazer. Não há memória, que por alguma razão se fixou na mente, que não encontre um sorriso tímido e satisfeito de quem viveu, sofreu, gostou, sobreviveu, aprendeu, reinventou, renasceu.
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4 comentários:
Acho que a maioria das minhas memórias são inventadas, a imaginação sempre preenche as lacunas, e minhas lacunas são tantas... O que mais gosto é quando sou assaltada por uma lembrança, de repente, ao sentir um cheiro, ouvir uma música... às vezes nem são lembranças "palpáveis", mas sensações de passado. Ah, memória, gosto muito desse assunto!
"O mundo seria insuportável se as criaturas tivessem boa memória."
Érico Veríssimo
Também tenho "ótima" memória e sei do que você e o Érico estão falando...
a gente fica sempre ruminando um passado que nunca termina de ser digerido...
a propósito, você é canceriana?
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